Homilia de Dom Lucas Oliveira, bispo auxiliar de Aparecida, na Santa Missa na Comemoração dos Fiéis Defuntos, no Cemitério Repouso Eterno (Cemitério de indigentes)


Queridos irmãos em Cristo Jesus,


Estamos aqui, num cemitério para indigentes, celebrando a liturgia da Comemoração dos Fiéis Defuntos. Nessa celebração eucarística, recordamo-nos de nossos entes queridos, pedimos ao Senhor pelas almas que padecem no purgatório e oramos para que todos aqueles que faleceram encontrem no Cristo a verdadeira vida, gozando das alegrias eternas no Céu, e que, no futuro, tenhamos a experiência da felicidade plena com o Senhor.

É uma celebração de memórias, de saudades  mas, acima de tudo, uma celebração de esperança. Esperamos a vinda gloriosa de Cristo, e também esperamos nosso encontro definitivo com Ele, quando tudo será posto em juízo.

Muitos temem este momento achando que o Senhor estará apenas apontando o dedo para nós, como se fosse um juiz injusto e impiedoso. Recordemo-nos, pois, que assim como um professor avalia um aluno em uma prova dando-lhe a nota que lhe cabe conforme os seus acertos e erros no exame proposto, assim seremos julgados pelo Senhor. Ele não irá nos acusar, pois o acusador é Satanás, que nos tira a vergonha de cometer o pecado e, quando cometemos o pecado, devolve-nos uma culpa muito amarga. 

Não precisamos ter medo do nosso encontro com o Senhor no fim de nossa vida se buscarmos constantemente, aqui na terra, fazer a Sua vontade. O Senhor irá nos julgar conforme a nossa justiça e misericórdia enquanto estávamos aqui. 

Algumas perguntas são necessárias para a nossa reflexão no dia de hoje: Se o dia da minha morte fosse hoje, eu estaria pronto, ou ainda sou apegado demais às coisas deste mundo? Agi com misericórdia para com os meus irmãos até aqui? Sou uma pessoa justa e honesta? Tenho mais apego ao dinheiro do que com as coisas de Deus? Busco minha glória aqui na terra mais do que busco ser santo, ou tenho uma postura digna do nome de filho de Deus que carrego desde o dia de meu batismo? O que estou fazendo com os dons e talentos que o Senhor me dá? Busco santificar meu trabalho e/ou meus estudos? Estou buscando as coisas do alto? Oro muito ou pouco? Deus é a minha prioridade? Vivo pecando sem me arrepender ou busco a graça de Deus quando erro e procuro não viver mais no pecado? Cuido do planeta, casa comum de todos os seres humanos, para que as gerações que hão de vir não sofram prejuízos climáticos? Desejo o bem ou o mal aos meus irmãos, sobretudo aqueles que mais erram ou que até mesmo me consideram como um inimigo? Oro por eles? Ataco os criminosos com palavras como fazem os sensacionalistas ou rezo pela conversão dessas almas? Busco seguir os mandamentos da Lei de Deus e os mandamentos da Igreja? O que faço para ajudar a minha comunidade? Sou engajado nos serviços pastorais? Busco evangelizar os irmãos com a minha vida ou só crio divisões e faço com que eles se afastem de mim? Sou solidário para com os irmãos de rua ou que estão passando por alguma necessidade? Já visitei algum irmão preso? Já visitei algum irmão doente? Faço obras de misericórdia corporais e espirituais? Creio naquilo que manda a Santa Mãe Igreja? Luto pela minha fé ou sou um cristão covarde? Luto a favor da vida e da dignidade da pessoa humana? Luto em defesa dos animais, cuidando da criação divina? Sou uma boa pessoa ou só aparento ser para conseguir destaque e congratulações? Ofendo meus irmãos? Peço perdão quando machuco alguém? Perdoo o meu semelhante quando este me pede perdão? Sigo verdadeiramente Cristo, CAMINHO, VERDADE E VIDA?

Ora, meus irmãos, precisamos mudar muita coisa se quisermos entrar no Reino de Deus. Precisamos pedir e exercer o perdão muitas vezes se quisermos estar diante daquele que é a fonte de misericórdia infinita um dia, adorando-O com seus anjos e santos… Precisamos amar muito, vivendo um amor que não seja interesseiro, a fim de que encontremos, no fim da nossa vida, o verdadeiro Amor como nosso porto seguro… Precisamos, aqui na terra, viver em Deus, construindo o Seu Reino, a fim de que estejamos com Ele e com os nossos irmãos e irmãs que partiram desta vida no Céu um dia…

Cristo, que por nós morreu e ressuscitou, é a Ressurreição e a Vida. Somente unidos a Ele verdadeiramente é que poderemos experimentar a vida plena. Só Ele pode nos oferecer a verdadeira felicidade, uma felicidade que não tem fim. Eis a nossa certeza: a nossa vida não acaba aqui. A morte não tem a última palavra. O Deus da Vida, Senhor dos vivos e dos mortos, espera  a nossa adesão ao seu Reino. 

Embora não sejamos perfeitos o suficiente para entrar de forma direta no céu, o Senhor não irá nos desamparar, se por toda a nossa vida tivermos buscado viver em seu Amor. Ele irá nos purificar, até que estejamos limpos e preparados o bastante, até que nossas almas estejam preparadas o bastante para amar a Deus por toda a eternidade. Não tenhamos medo do purgatório, lugar onde a alma se purifica para ir ao Céu, mas busquemos o máximo possível amar a Deus verdadeiramente, sobre todas as coisas, vivendo na justiça e na misericórdia, ajudando na construção do Reino aqui. Busquemos o máximo possível nos afastar da realidade do inferno e aproximarmo-nos da realidade do Céu. 

E novamente vos digo: rezai pelas almas do purgatório. Sim, rezemos por elas, para que cheguem o mais rápido possível até Deus através das nossas sinceras orações.

Recordo também que estamos em um cemitério para indigentes. Os irmãos que aqui jazem tem um nome, mas infelizmente não conhecemos esses nomes. Mas há alguém que se recorda deles, e que pode chamar essas ovelhas pelo nome: O Bom Pastor. Deus não faz acepção de pessoas, mas acolhe a todos na sua infinita misericórdia. Os irmãos que foram enterrados aqui não foram identificados pelas suas famílias ou suas famílias nem mesmo foram encontradas por ausência de documentos. Receberam um enterro digno, num lugar bom, o que é uma exceção da maioria dos casos. 

Muitas vezes irmãos que morrem nessa mesma condição de indigência não são enterrados de forma digna, e sim descartados. Normaliza-se cada vez mais com o passar dos anos, o descarte da vida humana, seja o descarte em relação aos idosos, às pessoas deficientes, criando-se cada vez menos políticas públicas para mudar esta realidade. Da mesma forma, descarta-se os irmãos miseráveis, que assim como os grupos sociais supracitados, não são devidamente incluídos na sociedade. Muitos desses irmãos vivem marginalizados e, mais especificamente no caso dos miseráveis, muitos deles não possuem nem mesmo documentos para que possam ser contados entre os cidadãos.

Estar aqui é um gesto de misericórdia para com estes irmãos indigentes. Rezar por suas almas é nosso dever como cristãos. Que possamos sempre mais valorizar a vida humana e buscar a salvação das almas, a nossa alma e a de nossos irmãos e irmãs, fazendo com que todos conheçam o amor do Cristo, e possam encontrar n’Ele a verdadeira vida, vida em abundância.

Que o Espírito, Senhor que dá a vida,  nos ajude a ser firmes na fé, alegres na esperança e solícitos no amor, e possamos, ovelhas e pastores, chegar um dia às eternas alegrias.


Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.


  02/11/2022


   + Lucas Oliveira

   Bispo auxiliar da Arquidiocese de Aparecida