Mensagem de Natal de Dom Lucas Oliveira, bispo auxiliar de Aparecida



Queridos irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo,


O povo que vivia na escuridão viu resplandecer uma grande luz. É Natal, Deus se faz presente na história humana da forma mais concreta possível, enviando seu Filho para a salvação do mundo. 

Nasceu para nós um menino, foi dado a nós um filho, mas não qualquer menino, qualquer filho, o Filho de Deus, que quis ser filho do Homem, a fim de que nós, filhos dos homens, pudéssemos ser chamados de filhos de Deus e, por meio da filiação adotiva, no Espírito podemos chamar a Deus de Pai. É por meio do Filho que Deus quer nos chamar de filhos, e nos fazer capazes de chamá-lo de Pai. Deus toca a humanidade com seu amor eterno a fim de que todos os homens tenham n’Ele vida e salvação e possam ter novamente a vida bem-aventurada que haviam perdido no Éden.

Nasceu-nos um menino, que veio para morrer por nós e ser ressuscitado pelo Espírito do Pai, confirmando seu poderio sobre a morte e o pecado. Por isso, celebramos com júbilo este que é o maior acontecimento da história humana: a chegada de Deus no meio de nós. É a segunda maior celebração do calendário litúrgico, ficando atrás apenas da Páscoa, afinal de contas, se o Cristo não tivesse ressuscitado, nos diz São Paulo, vã seria a nossa fé.

Celebramos a Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo não como a celebração do aniversário de Jesus, mas a atualização do mistério da encarnação e do nascimento de Deus Filho, Palavra Eterna do Pai, agora feito homem, semelhante a nós em tudo, menos no pecado, nascido de uma mulher, sujeito a lei como todos nós, a fim de resgatar-nos, de retirar-nos da imundície do pecado.

A Palavra que criou todas as coisas sendo pronunciada pela boca de Deus Pai, esse Deus Filho gerado do Pai, com a mesma substância do Pai, como professamos no Símbolo Niceno-Constantinopolitano, quis ser como um de nós, quis precisar aprender a falar, sendo ensinado com amor por Maria e José. O Deus Forte quis se fazer frágil, nascendo como uma pobre criança de nome Yeshua, que significa “Deus salva”. O Deus Eterno quis unir à sua natureza divina a nossa carne, quis ser, de fato, um de nós. 

Ele não nasceu em um palácio, pois nos palácios não há espaço para todos, só tem lugar uma minoria afortunada. Cristo veio nascer abaixo da linha da pobreza, em um estábulo, sendo colocado em uma manjedoura. Nasceu na extrema pobreza a fim de que na sua ascensão ninguém fosse deixado de escanteio. Seus primeiros adoradores, além de Maria e José, foram os pastores, homens simples, que eram considerados quase animais, por ficarem tanto tempo com os rebanhos. A comunidade dos rejeitados e marginalizados ouviu o anúncio jubiloso do anjo e o canto da multidão celeste e acorreu a Belém, cidade de Davi, cujo nome significa ‘Casa do Pão’ no hebraico, ‘Casa da Carne’ no árabe. 

Jesus, que por seu pai adotivo, São José, passou a pertencer à linhagem do Rei Davi, que era um pequeno pastor de ovelhas antes de ser ungido pelo profeta Samuel, foi visitado pelos pastores, que foram adorá-lo. O Cristo foi posto em uma manjedoura, onde os animais comem o feno. A manjedoura hoje dá lugar ao altar, onde se atualiza, por obra do Espírito Santo, o sacrifício de Jesus no altar da Cruz, ponto culminante da missão desse Jesus, que veio para nos salvar, morrendo e ressuscitando para nos dar a vida em seu Amor. 

Que o nosso coração não seja como as hospedarias, fechadas para o Senhor e lotadas de outras coisas e pessoas, que talvez parecessem mais importantes do que o pobre menino que nasceria da Virgem Maria. Que nosso coração seja uma nova manjedoura, que acolha o Pão do Céu, o Verbo Eterno do Pai que veio ser nosso alimento. O Senhor vem tocar nossa humanidade, nossa fragilidade. O Deus onipotente vem a nós na ternura de uma criança, que chamaria uma jovem de mamãe.

Esse Jesus que nasce só exige de nós essas coisas: humildade, simplicidade, empatia, docilidade e caridade.

Humildade, pois não podemos permanecer arrogantes e soberbos e ao mesmo tempo celebrar a vinda desse Deus Menino que nasce na pobreza. Se não somos próximos dos irmãos, sobretudo os mais necessitados, há algo de muito errado em nossa caminhada de vida e de fé. Se não somos humildes, dificilmente seremos simples, empáticos, dóceis ao chamado do Senhor e no trato com cada irmão e, se nos faltar a caridade, realmente não compreendemos ainda o verdadeiro sentido do Natal.

Nasceu-nos um menino, foi dado a nós um filho. E quanto a nós, permitimos que esse Jesus renasça em nossos corações? Será que buscamos também renascer para Deus, abandonando o pecado? Será que estamos dispostos a nos doar a Deus e aos irmãos, nós, que celebramos neste 25 de dezembro o mistério de um Deus que doa seu Filho para a salvação do mundo?

Que o Senhor faça crescer em nós a alegria, um desejo de paz, de amor, de fraternidade. Cultivemos a esperança de um mundo novo, cheio de solidariedade, perdão, misericórdia. 

Gramaticalmente o verbo tem duas funções: ação e ligação. Jesus, Palavra, Verbo de Deus, também tem essas duas funções. Ação pois é propriamente a concretização do plano salvífico, agindo na história humana, na vida de cada um de nós. Ligação pois, assim como um verbo pode também relacionar o sujeito com suas características, Jesus vem ligar novamente o ser humano a Deus, vem ligar o homem a realidade de vida bem-aventurada que outrora tinha perdido para sempre pelo pecado original. Que este Verbo Divino, que se fez carne e habitou entre nós, possa agir em cada coração humano, e seja conjugado em nossas vidas por meio de palavras e gestos concretos.


Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. 




+ Dom Lucas Oliveira
Bispo auxiliar de Aparecida