Homilia de Dom Lucas Oliveira na Festa da Apresentação do Senhor
Queridos irmãos e irmãs em Cristo Jesus,
Hoje celebramos a festa da Apresentação do Senhor. Esta festa é celebrada no Oriente desde o século IV, recebendo o nome de "Festa do Encontro do Senhor", uma vez que Jesus encontrou os sacerdotes do Templo ao ser apresentado, e também Simeão e Ana, representantes do povo. A Liturgia Latina incluiu essa festa no seu calendário no século V, e desde então celebramos essa festa quarenta dias após a celebração do Natal do Senhor. Embora já tenhamos iniciado o Tempo Comum, essa festa vem para concluir as celebrações do Natal neste ano litúrgico.
A origem desta apresentação do Menino Jesus no templo remonta ao Livro do Êxodo, quando,no capítulo 13, vemos Deus falar a Moisés, ordenando que todo primogênito do sexo masculino, tanto animais como seres humanos, deveriam ser consagrados a Ele. A própria passagem nos mostra adiante o sentido desta consagração do primogênito ao Senhor, quando lemos: "E quando o teu filho amanhã te perguntar: 'Que significa isto?', dir-lhe-ás: 'O Senhor libertou-nos do Egito, da casa da escravidão, com mão poedrosa. Como o Faraó se mostrava renitente em nos deixar partir, o Senhor matou todos os primogênitos da terra do Egito, desde os primogênitos dos homens até as primeiras crias dos animais. É por isso que eu sacrifico ao Senhor todas as primeiras crias masculinas e resgato todo o primogênito dos meus filhos'".
Observando a lei mosaica, Maria e José partem rumo a Jerusalém para lá apresentarem o Menino no templo, realizando-se também a oferta de dois pombinhos, que era a oferenda dos mais pobres do povo. A lei determinava que o primogênito do sexo masculino devia ser consagrado ao Senhor, sendo destinado ao serviço do templo, como foi o caso do profeta Samuel, por exemplo, no Antigo Testamento. Mas quando os levitas assumiram o serviço do templo, essa prescrição caiu em desuso, mas o primogênito deveria ser resgatado com uma oferta em dinheiro, para a manutenção do sacerdote. Por isso a oferta de Nossa Senhora e São José no templo.
O momento em que Jesus foi apresentado no templo pode ser definido como um momento de epifania, de manifestação, mas também um momento profético. Simeão, que aguardava ansiosamente a vinda do Messias, quando viu Jesus disse a célebre frase, que repetimos todas as noites quando rezamos as Completas na Liturgia das Horas: "Agora, Senhor, conforme a tua promessa, deixai vosso servo partir em paz, pois meus olhos viram a tua salvação, que preparastes diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória do teu povo, Israel". José e Maria ficaram surpresos com aquilo, mas ainda havia outra coisa a lhes surpreender.
Simeão disse a Maria que o Menino que fora apresentado seria causa de queda e reerguimento para muitos em Israel, um sinal de contradição, e também anunciou que haveria sofrimentos nesta missão, quando disse: "Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma".
Eis, pois, a festa de hoje, festa das luzes, pois o Cristo é Luz das Nações (Lumen Gentium), que dissipa as trevas do erro e nos ilumina. Permitamos que essa luz de Cristo penetre o mais íntimo de nossa frágil existência e que possamos sempre mais progredir na busca pela santidade, com muita fé, esperança e amor em nossos corações. As luzes que hoje carregamos, que representam esta luz de Cristo por meio das velas, são um sinal de que nós, iluminados pelo fulgor da Luz do Senhor, devemos correr ao seu encontro, como nos diz São Sofrônio, bispo, em um de seus sermões.
Ele prossegue, dizendo:"Na verdade a luz veio ao mundo e, dispersando as trevas que o envolviam, encheu-o de esplendor; visitou-nos do alto o Sol nascente e derramou a sua luz sobre os que se encontravam nas trevas: este é o significado do mistério que hoje celebramos. Caminhemos empunhando as lâmpadas, acorramos trazendo as luzes, não só para indicar que a luz refulge já em nós, mas também para anunciar o esplendor maior que dela nos há-de vir. Por isso, vamos todos juntos, corramos ao encontro de Deus. Eis que veio a luz verdadeira, que ilumina todo o homem que vem a este mundo. Todos nós, portanto, irmãos, deixemo-nos iluminar, para que brilhe em nós esta luz verdadeira. Nenhum fique excluído deste esplendor, nenhum persista em continuar imerso na noite, mas avancemos todos resplandecentes; iluminados por este fulgor, vamos todos juntos ao seu encontro e com o velho Simeão recebamos a luz clara e eterna; associemo-nos à sua alegria e cantemos com ele um hino de acção de graças ao Pai da luz, que enviou a luz verdadeira e, afastando todas as trevas, nos fez participantes do seu esplendor."
Hoje celebramos também o Dia Mundial da Vida Consagrada. A Igreja louva e bendiz a Deus por cada vida consagrada ao Senhor. Como franciscano, quero saudar todos os meus irmãos da Ordem dos Frades Menores, que me acolheram nesta semana no Postulantado, e desejo a todos os irmãos e irmãs de vida consagrada um feliz dia. Que a Luz de Cristo possa sempre estar acesa dentro de nós, que possa nos iluminar, ensinando-nos a viver no amor e consolando-nos nos momentos de dor e tribulação. Como Simeão e Ana, deixemo-nos mover pelo Espírito, que seja Ele sempre a nos mover, e não meras paixões. E permitamo-nos também surpreender por Deus a cada dia, sem fazer o que é próprio de nossa vida de forma mecânica, apenas por fazer.
Renovemos, neste dia, com entusiasmo, a nossa consagração, perguntando dentro de nós mesmos o que realmente nos move. Ainda que experimentemos muito cansaço e fadiga, até mesmo desilusões façamos como Simeão e Ana que pacientemente aguardaram na fidelidade do Senhor e não deixaram se perder a alegria daquele belo encontro, e também como a Virgem Maria, que guardou a profecia de Simeão em seu coração, meditando-a com amor. Vivamos a alegria do encontro com o Senhor a cada dia e que possamos ter um novo olhar, renovado pelo Espírito, sobre nossa vida e caminhada de fé nesta perspectiva da vida consagrada, que não é um desperdício, como muitos aí fora acham, mas sim a nossa opção pelo Senhor.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
+Dom Lucas Oliveira, OFM
Bispo auxiliar de Aparecida