Queridos irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo,
Iniciamos, com a Santa Missa da Quarta-feira de Cinzas, o Tempo da Quaresma, sendo novamente convidados pela Santa Mãe Igreja à metanoia, ou seja, à conversão, por meio da oração, das mortificações dos desejos em nossa carne e pela realização de gestos concretos de amor que expressem nossa decisão por Deus e nosso não ao pecado e a tudo aquilo que nos pode prejudicar nesta caminhada rumo ao Céu.
Mais uma vez somos chamados a nos prepararmos para celebrar a Páscoa do Senhor, enquanto esperamos viver a Páscoa de forma definitiva.
Recebemos as cinzas em nossa cabeça. Sim, nós recebemos esse sinal, que representa nossa fragilidade, a mortalidade e a efemeridade da criação, sua pequenez diante do Criador.
A Quaresma é um exercício de humildade, pois nos coloca no nosso devido lugar. Nada somos sem a misericórdia de Deus. Nada podemos fazer sem o seu Amor. Este tempo santo vem nos lembrar que somos criaturas, que não somos seres autossuficientes. Lembremos que a desobediência que levou o homem a separar-se de Deus foi justamente essa ilusão de querer ser seu próprio Deus, ser maior do que Deus. Que possamos entender que somos filhos de Deus, criados por Ele com muito Amor, criados para vivermos em seu Amor, e não distantes desta realidade.
Basta de guerras, de violência, de disputas, de ódio, de ofensas, de fofoca. Caminhemos juntos rumo à vida eterna, rumo ao Senhor, nosso Criador, que nos acolhe com Amor quando, de coração contrito e humilde, clamamos sua misericórdia.
Irmãos e irmãs, muitos receberam as cinzas antes de nós. No Antigo Testamento o povo colocava cinzas na cabeça e se castigava pensando: “Quem sabe Deus não desiste de irar-se contra nós... Quem sabe Ele não muda...". Aí está o ponto: não é Deus que deve mudar, não é Deus que precisa de conversão, mas sim nós, seres humanos, seus filhos, que constantemente transgredimos seus preceitos e queremos impor uma ditadura de egoísmo e de autossuficiência.
A culpa não está no outro, muito menos em Deus. Deixemos de tentar fazer da fé uma chantagem. E paremos com essa mania de querer achar um culpado para os nosso erros. Busquemos, portanto, em nosso coração, nossas qualidades e defeitos, nossos erros e acertos. Comparemos nossa vida com aquilo que nos ensina o Senhor por meio de sua Palavra, a fim de que possamos corrigir, com o auxílio de sua misericórdia, hábitos que prejudicam a nossa vida e que às vezes estão arraigados em nosso coração sem nem nos darmos conta.
Queridos irmãos, esta não é a primeira vez que celebramos a Quaresma. Mas, e se for a última? Será que as últimas quaresmas que vivemos foram frutuosas,ou será que tudo não passou de uma formalidade para nós? Será que nos deixamos contaminar pela hipocrisia dos fariseus, que só pensavam na oração, no jejum e na penitenciária como um artifício para chamar a atenção dos outros e receber elogios? Quais os nossos propósitos para esta Quaresma? Queremos, de fato, buscar viver uma vida mais próxima do ideal evangélico das bem-aventuranças que vimos nestas últimas semanas do Tempo Comum, ou será que vamos ficar do mesmo jeito?
Vamos rasgar o coração, e não as vestes. Se houver uma mudança, uma conversão exterior, que seja reflexo de uma grande conversão interior, e não apenas um gesto de falsa piedade para atrair a atenção dos outros e receber as recompensas neste mundo. Busquemos as coisas do alto, busquemos a recompensa do Pai, que vê o que está oculto, que examina o mais íntimo dos corações!
Que nossa oração seja sincera, estabelecendo uma relação mais íntima com o Senhor. Que o nosso jejum seja uma mortificação de desejos em nossa carne, um controle de nossos impulsos, uma renúncia ao pecado, um momento de fortalecimento espiritual, e não apenas um regime para emagrecimento do corpo. Que a nossa caridade não seja motivo de trombeteamento, mas possamos ser, de fato, pessoas mais generosas e solidárias, vivendo na prática o amor fraterno.
A Igreja no Brasil, por meio da Campanha da Fraternidade , nos chama a atenção este ano quanto à realidade da fome e da insegurança alimentar, pela qual passam cerca de 33 milhões de nossos compatriotas. Que possamos ter olhos e ouvidos abertos para enxergar a dura realidade, e, reconhecendo a necessidade dos irmãos, não deixá-los na mão, mas buscar ajudá-los sempre que possível, colocando-nos a serviço, sobretudo dos mais sofredores e marginalizados. Sigamos a ordem do Senhor “Dai-lhes vós mesmos de comer" e sejamos Igreja da partilha e da generosidade!
Que neste tempo quaresmal possamos observar o jejum e a abstinência como nos manda a Santa Igreja, buscar os sacramentos, em especial a Eucaristia e a confissão, ter mais intimidade com a Palavra de Deus, melhorando também nossa relação com os irmãos e com nós mesmos. Façamos deste tempo uma oportunidade para rezar mais, tanto individualmente como coletivamente, em família ou entre amigos, colegas, vizinhos, sendo Igreja que caminha na unidade e na fraternidade.
Deixemo-nos reconciliar com Deus. Reconheçamos nossa fraqueza, nossa pequenez, e corramos ao encontro d'Aquele que pode nos curar e libertar, d'Aquele que é a fonte inesgotável de misericórdia, nossa vida e salvação.Permitamos que Sua misericórdia transforme nosso ser como um todo, a fim de que sejamos pessoas novas, vivendo sempre mais na fé, na esperança e na caridade.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
+Dom Lucas Oliveira, OFM