Homilia de Dom Lucas Oliveira, OFM, na Solenidade de São José, pai adotivo de Jesus, esposo da Mãe de Deus e patrono da Igreja
Queridos irmãos e irmãs em Cristo Jesus,
Celebramos neste dia a solenidade de São José. Geralmente esta celebração é feita na liturgia no dia 19 de março, mas como o dia 19 neste ano é no domingo (IV Domingo da Quaresma), antecipa-se a liturgia desta solenidade para o sábado. A festa de São José está presente no calendário romano desde 1479. Grandes santos da Igreja, como São Francisco de Assis e Santa Teresa D'Ávila, por exemplo, incentivaram a devoção a São José. E, no ano de 1870, o papa Pio IX declarou São José como patrono da Igreja Universal, ou seja, da Igreja Católica. O papa Pio IX também instituiu outra festa, uma solenidade com uma oitava, a ser realizada em sua homenagem na quarta-feira, na segunda semana após a Páscoa.
A festa de 1870 foi substituída no Calendário Romano Geral do Papa Pio XII, em 1955, pela Festa de “São José Operário”, a ser comemorada em 1º de maio. Essa data coincide com o Dia Internacional dos Trabalhadores, desde a década de 1890, e reflete o status de José como santo padroeiro de todos os trabalhadores. Em 1870, no Decreto Quemadmodum Deus, o Papa Pio IX proclamou São José como Patrono da Igreja à Cidade e ao Mundo. Logo após, em 1871, o mesmo Papa, na Inclytum Patriarcham (Carta Apostólica), concedeu as prerrogativas litúrgicas dos Patriarcas às festas de São José para Perpétua Memória. Em 1889, o Papa Leão XIII emitiu a encíclica Quamquam Pluries, em que pedia aos fiéis católicos que rezassem a São José, como patrono da Igreja, em vista dos desafios que a Igreja enfrenta.
Apesar de não termos na Sagrada Escritura falas de São José, suas ações dentro de cada episódio narrado de sua vida e da família de Nazaré nos falam muito mais e melhor do que as palavras que poderiam estar contidas no texto sagrado. O que sabemos de São José é que era um homem justo, um homem bom, honesto, temente a Deus, vivendo assim a mesma justiça e piedade dos patriarcas do Antigo Testamento, como por exemplo Abraão, nosso pai na fé. Era um homem obediente, pois vemos que ele obedece a Lei do Senhor e conhece as leis e os preceitos da comunidade judaica, cumprindo a lei com Maria e o Menino Jesus.
José veio da linhagem do Rei Davi, da linhagem de Jessé. Isso aconteceu para que, ainda que indiretamente, o Filho de Deus que viria ao mundo por obra do Espírito Santo e que nasceria do ventre bendito de Maria seria aquele de quem o profeta Natã havia falado, aquele que iria manter firme para sempre o trono de Davi, reinando num reino que não terá fim. É evidente que não falamos aqui de poderes e glórias humanas, mas sim do reino eterno de Nosso Senhor Jesus Cristo, em comunhão com o Pai e o Espírito, o reino que "não é deste mundo", como o próprio Jesus afirmou a Pilatos, é o reino celeste. Tudo aconteceu para que a profecia se cumprisse em Jesus, que dá o pleno cumprimento ds Lei e dos profetas.
São José demonstrou ser um homem de fé, muito humilde, dócil ao Espírito Santo, que vivia na intimidade com Deus, este que o visitava até em sonhos com seu anjo. São José não coloca obstáculos para que a Vontade de Deus se realize em sua vida. Ele simplesmente vai, levanta-se e faz como o Senhor lhe ordenou. Que tenhamos essa mesma disposição de São José na luta contra o mal e no testemunho do Evangelho, trabalhando arduamente pela causa do Reino. Que possamos, ao ouvir a voz do Senhor, escutar e obedecer, saindo de nosso comodismo, de nossas vaidades, de nosso egoísmo, de nossa preguiça, para sermos cristãos ativos no mundo.
São José é o homem do cuidado, guardião do redentor, castíssimo esposo da Virgem Maria, guardião também da Santa Igreja, que continua a realizar a missão salvífica de Cristo. José, quando obedece o Senhor, que lhe havia falado pelo anjo, acolhendo Maria como sua esposa e não abandonando-a à própria sorte, demonstra um cuidado com Maria e com o Menino em seu ventre. José cuida de Nossa Senhora e de Jesus desde aquele momento até o fim de sua vida. É ele que procura um lugar para que o Menino Jesus nasça, é ele quem se levanta, toma o Menino e sua Mãe e parte para o Egito, como o anjo do Senhor lhe ordenara. Lá no Egito, José trabalha, cuida da Sagrada Família, até a morte de Herodes, quando então retorna a Nazaré, e segue cuidando de Maria e de Jesus, ensinando a Jesus o seu ofício, fazendo o Cristo se tornar, de fato, um homem, através daquela santa convivência. Que ele possa cuidar de nós, mostrar-se pai também para nós, e que possamos viver essa dinâmica do cuidado para com todos, sobretudo os mais necessitados.
São José demonstra ser muito forte e corajoso em sua caminhada de fé, confiando plenamente no Senhor, pois, mesmo sem entender perfeitamente como o mistério da Encarnação do Verbo tinha ocorrido em Maria, ele aceitou a missão de ser o pai adotivo de Jesus. Que esse gesto de amor, que é uma decisão muito ousada, destemida e também muito louvável, possa inspirar os homens que desejam adotar filhos, uma vez que não podem biologicamente gerar vida com suas parceiras. Que possam amar e cuidar das crianças que irão adotar assim como fez São José para com o Menino Jesus, que cresceu em estatura e graça diante de Deus e dos homens, aprendendo também a viver na obediência. Sejam cuidadores da vida, de toda vida!
São José, como esposo de Maria, dá uma grande lição a todos os casais. Como seria bom se os filhos fossem como o Cristo, se os pais fossem como São José, se as mães fossem como Nossa Senhora... Mas por qual motivo devemos ter essa ideia apenas como uma utopia em nossas mentes, e não como algo concreto? Saiamos do nosso comodismo e, como família, nos espelhemos sempre na Santa Família de Nazaré. Que os maridos possam amar, honrar, respeitar e obedecer suas esposas, e que a recíproca seja verdadeira, ambos vivendo em harmonia, em igualdade, no diálogo e na corresponsabilidade, fazendo do lar um céu, e destruindo, com muita ação mas também com muita oração todas as investidas de Satanás, que quer fazer de nossos lares um inferno. Que os homens possam ser mais castos, honestos, justos, prudentes, zelosos, amorosos, santos, como foi São José.
São José, como vimos no Evangelho, se preocupou com o Menino, procurando-o com Maria no meio da caravana. Encontraram-no no templo cuidando das coisas do Pai Celeste, argumentando com os mestres e doutores da Lei. Muitas vezes, queridos irmãos, na correria de nossa vida, acabamos nos perdendo do Senhor. Precisamos, então, voltar ao templo, pois lá o encontraremos, seja no templo físico, no sacrário, esperando por nossa adoração, seja no mais íntimo de nosso coração, uma vez que somos templo do Espírito Santo.
Que possamos observar a Lei, procedendo com justiça e piedade, vivendo o amor, a bondade, o cuidado, a compaixão, a honestidade, a castidade, caminhando na Verdade, como fez São José. Assim, possamos um dia viver a eterna felicidade, com a Virgem, Mãe de Deus, todos os santos e santas e o Cristo, Caminho, Vida e Verdade para todo aquele que tem fé.
Rogai por nós, ó glorioso São José, para que sejamos dignos das promessas de Cristo!
Assim seja.

+Dom Lucas Oliveira, OFM